A Dieta Planetária: evento propõe debate sobre soberania alimentar, biodiversidade e sustentabilidade, na Casa Firjan

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O encontro, realizado pelo Comida do Amanhã, evidenciou a importância do fomento de hábitos alimentares saudáveis diante do atual cenário do sistema alimentar, no país

“A comida é revolucionária, a perda de biodiversidade, o aumento da obesidade infantil e a produção intensiva de proteína animal colocam o Brasil no meio de uma discussão global necessária, urgente e baseada em fatos. Vivemos um momento de imensos desafios e infinitas possibilidades – comida no centro das maiores pandemias e instrumento potente para trazer as soluções mais revolucionárias”. No dia 2 de julho, o instituto Comida do Amanhã, realizou o debate ‘A Dieta Planetária – Soberania alimentar, Biodiversidade e Sustentabilidade’, na Casa Firjan.

Partindo do lançamento nacional do relatório “Food, Planet, Health”, elaborado pela plataforma global EAT, o evento dedicou um dia inteiro de conversas sobre dietas sustentáveis, a fim de promover o diálogo e fomentar o consumo consciente. Por meio de diferentes painéis, 17 palestrantes participaram do debate para propor diálogos, diante do atual cenário do sistema alimentar estruturado no país, com as práticas mercadológicas promovidas pelo agronegócio.  “​Quais são os desafios, oportunidades e possibilidades para uma dieta planetária, que respeita os limites do planeta e promove a saúde humana, no Brasil?”

Painel 1: Do Global ao Nacional: uma dieta planetária brasileira

Para o painel 1, ‘Do Global ao Nacional: uma dieta planetária brasileira’, participaram Patrícia Jaime, representando a Escola de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP); Maureen Santos, representando a Fundação Heinrich Boll – Brasil; Beto Palmeira, representando o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA); Guilherme Dutra, representando o programa Marinho e Pesqueiro;  Mariela Uzêda, representando a EMBRAPA; e Francine Xavier, representando o Comida do Amanhã e a Cambucá Consultoria. 

A mediação deste primeiro encontro foi realizada por Juliana Tângari, ex-presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional do Rio de Janeiro (Consea-Rio) e membro do Comida do Amanhã.  Ao abrir a roda de conversa, Patrícia Jaime, que integra a equipe técnica responsável pela elaboração do Guia Alimentar da População Brasileira e da Dieta Planetária, apresentou as publicações e os dados pertinentes para uma dieta equilibrada nas diferentes regiões do país. “Só é possível colocar em prática a regra de ouro do Guia Alimentar da População Brasileira, se nós cozinharmos, em vez de comprarmos os alimentos ultraprocessados”. Afirma Patrícia. 

Maureen Santos, da Fundação Heinrich Boll, apresentou, para uma plateia cheia e concentrada na Casa Firjan, dados relacionados à agropecuária brasileira. De acordo com a profissional, o Brasil é o maior produtor de carne no mundo e o segundo maior produtor de soja – utilizada, em sua maioria, para ração de gados, criados no país em larga escala com intuito de exportação de carne bovina. Ela fez um alerta sobre a relação entre o agronegócio e o alto consumo de água no país. 

“Nós gastamos mais de 15 mil litros de água só na produção bovina, portanto, não dá para falarmos de uma dieta saudável, se não olharmos para a cadeia de produção”. Com esta afirmação, Maureen  também complementa expondo os desafios relacionados ao abastecimento de água, uma vez que os racionamentos estão relacionados com o alto consumo das indústrias e não com os consumidores comum, na sociedade. 

Beto Palmeira, do MPA, trouxe temas sobre a agricultura sustentável no Brasil e a relação entre a agroecologia e a soberania alimentar. Beto enfatizou sobre a necessidade de discutir a insegurança alimentar presente entre a população negra, indígena e das camadas mais pobres, quando evidenciou a questão fundiária estruturada a partir do processo escravagista no país, responsável por dificultar o acesso à terra e à alimentação de qualidade. “Por que não há equipamento público para a alimentação? A alimentação é um direito que deve ser assegurado à sociedade, portanto, é necessário o olhar do Estado para a questão, com a necessidade de políticas públicas”.  Comenta Beto. 

Painel 2: ‘Das grandes questões às soluções locais’

​Ao abrir o segundo momento da ‘Dieta Planetária – Soberania Alimentar, Biodiversidade e Sustentabilidade’, Mónica Guerra, fundadora do Instituto Comida do Amanhã, lançou o livro “Isto não é apenas um livro de receitas”, elaborado em parceria com o Fundação Heinrich Boll – Brasil e com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), que reúne 34 receitas de diversos chefs da gastronomia, entre eles, Ciça Roxo, idealizadora da iniciativa Olhar Saudável, e 12 artigos de especialistas nacionais sobre o contexto nacional dos sistemas alimentares. 

Neste painel, ‘Das grandes questões às soluções locais’, participaram Tainá Marajoara, representando a tribo indígena Marajoara; Mariana Aleixo; representando o buffet Maré de Sabores; Regina Tchelly; representando o Favela Orgânica; Alessandra Pereira, representando a Escola de Nutrição da UniRio; Tomás Delleuse, representando CARPE projetos; Miriam Langenbach, representando a Rede Ecológica; e Veena Tikuna, representando a tribo indígena Tikuna. A mediação foi realizada por Mónica Guerra.

A roda de conversa iniciada por Tainá Marajoara trouxe uma crítica à desterritorialização dos alimentos. Ao abordar sobre o desconhecimento por parte da sociedade em relação os alimentos nativos do país. Tainá evidencia a incoerência da desvalorização da cultura alimentar brasileira em detrimento da importação de hábitos estrangeiros. 

“É necessário pensarmos em, por exemplo, uma dieta da Floresta Amazônica, dos pampas, do cerrado, de localidades brasileiras. Pensar no consumo de alimentos nativos da nossa terra. Portanto, é incoerente adotarmos uma dieta mediterrânea, que faz mais sentido para os países europeus, não para o nosso. Precisamos valorizar a dieta brasileira, para que não deixemos que mais árvores tombem em nosso país”. Afirma Tainá. 

Mariana Aleixo, do Maré de Sabores, e Regina Tchelly, do Favela Orgânica, abordaram sobre a importância de empoderar profissionais das comunidades cariocas, por meio da comida, sendo esta uma saída para inserção no mercado de trabalho e para fomentar hábitos alimentares mais saudáveis. Funcionando há nove anos, no Complexo da Maré, comunidade que margeia as três avenidas mais importantes da cidade do Rio: Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela, o buffet representado por Mariana, nasceu do projeto Redes da Maré, com a finalidade de melhorar a qualidade de vida das mulheres da região. 

“Nós já qualificamos mais de 600 mulheres durante toda a trajetória do Maré de Sabores. A população do complexo é, em sua maioria, composta por nordestinos e descendentes. Dessa forma, nós trabalhamos pratos que valorizem a origem nordestina e, consequentemente, a cultura e a identidade dos moradores.” Explica Mariana. 

Instituto Comida do Amanhã 

O Instituto Comida do Amanhã é uma organização sem fins lucrativos, fundado por Mónica Guerra, arquiteta e mestre em Planejamento e Gestão Urbana. A iniciativa informa e realiza ações em prol da alimentação saudável e sustentável, com a finalidade de ressignificar a relação entre consumidor e comida. Dessa maneira, o Comida do Amanhã promove palestras, oficinas e encontros para dialogar sobre o sistema alimentar global e as mudanças necessárias a fim de assegurar qualidade de vida para a sociedade. 

Conheça o Instituto Comida do Amanhã: https://www.comidadoamanha.org/

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