Uma viagem de sabores

Foto Olhar Saudável | Berg Silva

O novo coronavírus transformou a vida de todos nós, obviamente. Cada qual com um desafio diferente e poucos com privilégios. Entre os privilegiados, uma das atividades de lazer mais prejudicadas foi viajar. Mesmo com todos os protocolos de segurança, visitar outros lugares pode se tornar até uma missão impossível.

A cidade de Búzios (RJ), por exemplo, segue com barreiras sanitárias com critérios bem severos. Somente este mês, a Prefeitura lançou um cadastro para começar a receber turistas. Empresários devem realizar uma inscrição online e gerar um código para cada visitante entrar no município. No momento, apenas hotéis e pousadas. Casas estão de fora.

É aí que a gastronomia entra para compensar. Comer é uma forma de viajar sem sair do lugar. Ao preparar receitas típicas de outras regiões ou que costumávamos comer na casa de pessoas queridas, entramos em outros universos pelos ingredientes selecionados. É um privilégio poder visitar lugares e momentos únicos por meio dos sabores.

A sensação pode ser a de conhecer um lugar mágico, rever uma tia querida ou se embrenhar pela primeira vez numa aventura. Tudo por intermédio dos alimentos. Sempre que faço um rosbife, por exemplo, visito meu pai em pensamento. Ele prepara um de respeito e o prato me teletransporta para os almoços em  família de épocas mais leves e festivas.

E, foi justamente pensando nisso, que diversos chefs de cozinha embarcaram nessa mesma ‘viagem’ durante a pandemia. Muitos deles estão oferecendo receitas autorais gratuitamente, como forma de estimular o próprio negócio: vender aulas, entregar comida em casa e até kits de ingredientes completos para os clientes reproduzirem o passo a passo de forma mais fiel.

No Rio, o chef Pedro de Artagão [@partagao], do Grupo Irajá, não mede esforços e revela muitas receitas à sua moda: com o ‘Filet ao roquefort’, você pode viajar pra a França; já com a versão do clássico ‘roupa velha’, você prova um prato fácil e delicioso que pode ser feito com sobras de carne assada ou qualquer outra carne que tiver na geladeira.

O roupa velha é um prato afetivo para muitas pessoas. Consiste, basicamente, de carne desfiada, transformada num ensopado. Muita gente come com pão, num lanche prático de final de dia cansativo. Usar sobras de comida para preparar novos pratos é uma forma de reaproveitamento muito criativa. Você sai da mesmice e não desperdiça.

Esse lugar de afeto que a comida traz, está guardado na minha memória com a canja de galinha feita com massinha de letrinhas. Na minha infância, a canja sempre tinha arroz, massinha e cenoura – era um prato para dar mais sustância antes de dormir. Sim, era uma comida de jantar, nunca de almoço…

Quando resolvi cozinhar, aprendi a colocar coentro na canja numa viagem que fiz ao Parque Nacional de Joshua Tree, localizado no estado da Califórnia (EUA). Para mim, é um tempero fantástico e perfumado que adoro. Tem quem odeie coentro. É ame-o ou deixe-o… Mas com ele eu faço a minha canja, sem arroz, sem massinha, com cenouras, batatas e até os miúdos!

Deu desejo de uma sopinha reforçada? Canja de galinha não faz mal a ninguém, não é mesmo? Não só a vovó recomendou e o Jorge Ben cantou, mas eu também viajo com ela em sentimentos e lugares revisitados na memória. Termino a coluna da semana com um beijo quentinho no estômago, ciente de todos os meus privilégios, concedidos ou conquistados.

Jornal Local | Valença (RJ)

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