COVID-19 e Mudanças Globais na Alimentação

Quais os reflexos da pandemia COVID-19 para o mundo em que vivemos? A crise tem muitos desdobramentos: econômicos, sanitários e sociopolíticos. Vou focar em trazer algumas reflexões sobre as mudanças que a pandemia provocou nos sistemas alimentares, com especial atenção à alimentação escolar, padrões de consumo e obesidade.

As mudanças não são iguais para todos e muito menos na mesma intensidade. As desigualdades ficaram ainda maiores, como o agravamento da crise de fome. O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) publicou um relatório em julho, informando que cerca de 149 milhões de pessoas estavam em situação de fome, em 2019.

Mas o que é fome, de verdade? Como mensurar a situação de crise de fome? Existe uma escala científica, criada por especialistas de agências humanitárias do mundo todo, incluindo órgãos governamentais e organizações não governamentais; e conhecida no Brasil como Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (ou Escala IPC).

A IPC é utilizada para classificar a segurança alimentar e nutricional de países e regiões. Essa metodologia científica ajuda a fazer com que as intervenções de segurança alimentar sejam baseadas em necessidades estratégicas e apropriadas. Desta forma, evita-se, também, que o termo seja utilizado politicamente de forma incorreta.

De acordo com a escala IPC, a crise de fome acontece “quando famílias apresentam grandes lacunas no consumo de alimentos, que se refletem em níveis muito altos de desnutrição aguda e mortalidade muito elevada ou só conseguem suprir suas necessidades de consumo de alimentos adotando estratégias de emergência”.

Com a COVID-19, milhões de pessoas serão empurradas para a situação de fome no mundo. Em entrevista a um grande portal de notícias, o ouvidor-geral da Defensoria Pública do Rio de Janeiro declarou que a nova realidade trouxe uma “flutuação da condição socioeconômica das famílias” deixando parte delas numa situação de “extrema vulnerabilidade”. Fato.

A merenda escolar na rede pública de ensino do Brasil cumpre papel crucial neste sentido. E mais, com a interrupção das aulas, a distribuição de alimentos via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) ficou prejudicada. O PNAE garante que as crianças sejam alimentadas com produtos da agricultura familiar, altamente nutritivos.

Desta forma, a maioria das crianças ficam sem acesso à merenda, que é única refeição do dia para milhares delas. E por meio das políticas ineficientes de entrega da alimentação escolar, a fome se alastra.  Problemas de distribuição, má qualidade ou quantidade de alimentos insuficientes na cesta, são alguns dos problemas levantados na Defensoria Pública do Rio.

Outra mudança que contribui para a piora da qualidade da alimentação durante a COVID-19 é a redução do poder de compra. E, como consequência, o aumento do consumo de alimentos mais baratos e menos saudáveis como os ultraprocessados, enlatados e embalados. Sendo os ultraprocessados os maiores vilões da saúde, como eu pontuei em minha coluna inaugural.

Por outro lado, o consumidor consciente começa a prestar atenção às marcas que estão realizando ações de responsabilidade social em meio à pandemia. A Ypê, por exemplo – do detergente nosso de cada dia – produziu álcool em gel gratuitamente para unidades de saúde e distribuiu sabão em barra para comunidades carentes. Um golaço.

A redução do poder de compra traz outro problema pandêmico: o aumento da obesidade e do sobrepeso, que caminham juntos com o sedentarismo, a ansiedade e a depressão. A obesidade em si provoca outros problemas de saúde, como a variação nos índices glicêmicos entre os diabéticos. Tudo consequência do isolamento necessário durante a quarentena.

Apesar do contexto apresentado ser um panorama dos impactos negativos da COVID-19, para lançar luz sobre o que deve ser feito tanto no plano individual como no coletivo, podemos olhar com esperança para os pontos positivos. Um deles é que parte de nós nos redescobrimos no convívio familiar e na cozinha; e passamos a comer mais saudável.

Outro ponto que merece atenção, é que houve redução no consumo de açúcar em todo o mundo, com destaque para bebidas açucaradas. Reportagem da agência de notícias Bloomberg informou que o principal motivo é o isolamento social. Atividades como cinemas, teatros, bares, restaurantes e estádios induzem a um maior consumo desse alimentos.

O melhor neste momento é seguirmos em frente, com amor, afeto, solidariedade e responsabilidade. E tentarmos dar atenção aos assuntos urgentes, fazendo cada qual a sua parte, dentro do máximo que pode ser feito. Não temos tempo a perder. Agora é hora de mostrarmos nossa faceta mais humanitária. Sem romantismo e com os pés no chão.

Projeto Olhar Saudável | Simone Carrocino

 Jornal Local | Valença, RJ

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