Café: Afeto, Memória & Cultura

Nesta edição especial me foi pedido que eu pinçasse algum produto da região para falar sobre o que era produzido na Aldeia de Nossa Senhora de Valença, depois alçada à condição de Vila após a passagem do Príncipe regente D. Pedro I. Como minha pegada não é história do Brasil, vou deixar pra você saber mais sobre isso com o historiador Adriano Novaes.
Me decidi pelo café, a segunda bebida mais consumida no mundo, pois a região sempre surpreende com as suntuosas fazendas históricas que fizeram parte do Vale do Café no século 19. Tive a chance de viver esta cultura, pois passei parte da minha feliz infância nos gramados da belíssima Fazenda São Polycarpo, em Rio das Flores.
O lugar que a fazenda ocupa na minha memória é de grande afeto e saudosismo. Lembro com perfeição da “São Poly” sendo restaurada pelo meu querido Tio Arnoldo [in memoriam]. Durante as obras, ficávamos na casa de caseiro e, assim, acompanhamos cada detalhe da restauração – conduzida por ele e por minha Tia Ana, com capricho e paixão.
No inventário realizado pelo Instituto Cidade Viva, estão todas as fazendas históricas do Ciclo do Café, consideradas patrimônio cultural e ambiental. Me incumbi de levantar quais são as de Valença. Com exceção da Fazenda Florença, em Conservatória, elas não produzem mais café e as mais conhecidas integram, hoje, o circuito do turismo cultural local.
Das 27 fazendas de Valença, todas cafeeiras, 13 se dedicam à pecuária nos dias atuais; sendo que, destas, apenas quatro são destinadas à produção de leite. Veja tabela a seguir:

O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo. Ao pesquisar para esta coluna, fiquei reflexiva sobre a substituição, na região, da agricultura cafeeira pela pecuária. Além da perda de parte da cultura local, existe um movimento global para reduzirmos o consumo de carne, principalmente por todos os problemas ambientais que esse hábito provoca…
Mas vamos falar da Fazenda Florença, localizada na Estrada da Cachoeira, no distrito de Conservatória. A atual sede do casarão foi erguida em 1852 e o local já foi cenário de novelas como “Dona Beija”, “Sinhá Moça” e “A Escrava Isaura”. É hoje um hotel fazenda e, na contramão de todas as outras, a Florença resolveu retornar às origens e produzir café.
Cultivando desde 2017, o grão do tipo 100% arábica ganhou o primeiro lugar na categoria “natural”em evento promovido pelo Sebrae e pela Associação dos Cafeicultores do Estado do Rio, em novembro do ano passado (2019). O objetivo do concurso foi incentivar a produção de cafés especiais no estado do Rio, buscando alcançar uma fatia específica do mercado.
Saber sobre café é debruçar-se sobre um universo imenso. Para resumir, o grão arábica se caracteriza por produzir cafés mais requintados, com aroma intenso. Seus sabores são bastante variados, bem como os níveis de corpo e acidez. Depois desse “achado”, pensei que muitos poderiam não saber deste reconhecimento e trago aqui minha entrevista.
Fui muito bem recebida e, precisando mudar de última hora a intenção de uma visita personalizada, a troca de informações ocorreu a distância e traz um panorama real da atual situação da produção da Fazenda Florença. Segue minha conversa com Paulo Roberto dos Santos, proprietário e produtor de Cafés Especiais de Valença.

Cafezal | Hotel Fazenda Florença*


Carolina Fonseca:
Paulo, tomei conhecimento do projeto ‘Vocações Regionais da Cafeicultura Fluminense’. Como começou a empreitada, qual foi a produção da Fazenda Florença em 2018 e 2019 e qual a previsão de sacas para 2020?
Paulo Roberto dos Santos:
Carolina, esse projeto começou em 2015. Nós participamos de palestras, cursos e treinamentos. O plantio começou em janeiro de 2017 e nem esperávamos ter café em 2018… Porém, 1 ano e meio após o primeiro plantio, tivemos uma pequena colheita, chamada de ‘safrinha’. Foi uma surpresa, pois esperávamos café somente no ano seguinte. Em 2019, tivemos uma colheita de cerca de 20 sacas. Em janeiro de 2018, ampliamos o cafezal e estamos esperançosos de que a Natureza nos dê entre 150 e 200 sacas de café neste ano de 2020. A seca nas regiões cafeeiras de todo o Brasil tem sido dura com a ‘florada’.

Carolina Fonseca:
Como está o andamento do cultivo em meio à pandemia?
Paulo Roberto dos Santos:
Carolina, nossa colheita estava programada para começar em março e terminar em junho. Apesar do momento delicado, a colheita foi muito favorável. Acatamos a decisão das autoridades e fechamos o hotel durante o período que foi decretado, de março a julho. Nós iríamos contratar mão-de-obra vinda de Minas Gerais. Devido à pandemia e ao fechamento do hotel, aproveitamos nosso próprio pessoal para fazer a colheita, a seleção e a secagem. O cafezal é amplo, portanto as condições de trabalho foram de acordo com o que esperávamos, sem prejudicar os funcionários ou o trabalho no campo. E também acabou casando com a reabertura do Hotel Fazenda, portanto tudo correu muito bem.
Carolina Fonseca:
O que significou ganhar o 1o lugar na categoria ‘natural’ do concurso de cafés especiais em 2019?
Paulo Roberto dos Santos:
Foi uma surpresa para nós e, também, para os produtores das regiões Serrana e Noroeste – as maiores produtoras de café do Estado do Rio de Janeiro.
Foi uma grata surpresa o Estado do Rio ter café de qualidade e, principalmente, cultivado aqui, em Conservatória, que já teve essa tradição e viveu desta cultura por tanto tempo. Inclusive em termos turísticos, fomentou a região do Vale do Café e a aquisição foi muito celebrada por municípios vizinhos. Foi uma conquista de todos nós.
Carolina Fonseca:
O que é um café ‘natural’?
Paulo Roberto dos Santos:
Café “natural” é um método de preparo para a secagem do café. Ele é colhido maduro, colocado no sol e assim vai desidratando até ficar com a aparência de um coquinho. Isso significa ser natural.
Carolina Fonseca:
A produção de vocês é toda artesanal, com base na agricultura familiar? E a cafeteria modelo da Fazenda, é fruto deste projeto do Sebrae?
Paulo Roberto dos Santos:
Sim, Carolina, nossa produção é toda artesanal, apoiada na agricultura familiar. Embora sejamos os maiores produtores da região pela retomada inusitada, no universo do café somos bem pequenos. Sobre a cafeteria, já tínhamos uma perspectiva de ter um espaço deste, mas não no meio do cafezal. Fomos felizes de já ter uma estrutura que anteriormente era utilizada para criação de éguas e restauramos o espaço para ser uma cafeteria, que hoje faz um enorme sucesso pela localização.

O Hotel Fazenda Florença está cumprindo todos os protocolos de segurança para visitas e hospedagens. Além da estadia com pensão completa, a fazenda oferece atividades culturais, muitas delas relacionadas à cultura do café do século XIX. Paulo Roberto está há 21 anos a frente da Florença e a paixão e orgulho ao falar do que tem para oferecer, mostra que nós, valencianos, temos muito a conhecer, valorizar e compartilhar.

Você sabia?
Em 1912, chegaram à Fazenda Vista Alegre, em Valença, os primeiros imigrantes dinamarqueses do Vale que criaram o famoso “queijo prato” quando a produção cafeeira deu lugar ao gado leiteiro.

  • Foto: Reprodução/Redes sociais

Jornal Local | Valença, RJ

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