Sementes da solidariedade

Rotulagem de transgênicos, uma polêmica
O “T” amarelo nas embalagens indica que o alimento é transgênico
Foto: Reprodução/Site Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor

O empobrecimento da diversidade da produção agrícola do agronegócio é diretamente proporcional ao empobrecimento de nossa cultura. Vou defender essa afirmação por meio de um comparativo entre o combo agronegócio + transgênicos + agrotóxicos versus sementes crioulas, também chamadas de sementes tradicionais, ‘da paixão’ e ‘da solidariedade’.
As culturas geneticamente modificadas foram autorizadas no Brasil em 2003. Inicialmente, defendia-se que a utilização de sementes transgênicas diminuiriam o uso de agrotóxicos. Um estudo específico entre muitos outros, publicado em outubro de 2017*, me chamou a atenção, pois comparou a adoção dos transgênicos com o uso de agrotóxicos por 13 anos.
Quem apostou na diminuição dos defensivos, errou. De acordo com esse estudo feito por pesquisadores de instituições renomadas, o uso total de agrotóxicos aumentou 1,6 vezes entre os anos de 2000 e 2012. O aumento do uso vem acompanhado das consequências negativas tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.
Essas sementes transgênicas são fruto da introdução de genes de animais ou outras plantas nas sementes naturais. Entre os diversos riscos para o meio-ambiente e para a saúde, cientistas destacam o aumento das alergias e de resistência aos antibióticos, maior quantidade de resíduos de agrotóxicos e a perda da nossa rica agrobiodiversidade.
As sementes crioulas foram cultivadas por décadas, passadas de geração em geração e seguem preservadas por famílias camponesas, guardiões ou bancos de sementes. Integram o patrimônio histórico e cultural de um povo, sendo responsáveis por manter a soberania alimentar, que é o direito que cada povo tem de produzir seus próprios alimentos.
Ou seja, uma técnica secular, gratuita, de produção natural e que foi desenvolvida por agricultores e agricultoras do mundo todo, é apropriada por empresas para dar origem a produtos transformados, vendidos como sendo muito melhores, mas que, na verdade, só nos faz reféns de mais insumos vendidos por essas mesmas empresas donas das patentes.
As detentoras da tecnologia dos transgênicos cobram royalties de quem usa essas sementes. Ou seja, elas são patenteadas e os agricultores devem pagar uma taxa tecnológica para ter o direito de usá-las. Essas mesmas (poucas) empresas detentoras das patentes têm como negócio principal a comercialização de fertilizantes, agrotóxicos, pesticidas e herbicidas…
Volto à afirmação do início da coluna: o empobrecimento da produção agrícola causado pelo agronegócio é diretamente proporcional ao empobrecimento de nossa cultura. Ao comprar sementes transgênicas, o agricultor assina um “pacote tecnológico” que tira dele o controle e entrega para as empresas o poder de tudo o que ele produz.
Tudo o que é produzido passa a ser padronizado, controlado e ‘solucionado’ por essas empresas detentoras da tecnologia. Os saberes tradicionais, os modos de cultivo mais sustentáveis, os alimentos mais saudáveis e pertencentes à nossa agrobiodiversidade, os diretos de quem produz… Tudo isso é enterrado em nome do lucro e da exploração.
Atualmente, existe uma flexibilização na lei de rotulagem de transgênicos, o que prejudica a transparência para que os consumidores possam fazer escolhas conscientes. O projeto de lei PLC 34/2015 altera a Lei de Biossegurança para que sejam rotulados apenas alimentos que contenham 1% ou mais de transgênicos em sua composição.
Informe-se para exercer sua liberdade de escolher produtos sem a presença de transgênicos.

*Uso de sementes geneticamente modificadas e agrotóxicos no Brasil: cultivando perigos | Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.10 Rio de Janeiro Oct. 2017

JORNAL LOCAL | VALENÇA RJ

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